Uma auditoria recente do Tribunal de Contas da União (TCU) lançou luz sobre problemas estruturais em algumas das principais políticas públicas do país.
O Relatório de Fiscalizações em Políticas e Programas de Governo (RePP) 2025, concluído em setembro, identificou falhas relevantes em nove iniciativas estratégicas do governo federal, incluindo o Bolsa Família, a Previdência Social Rural, o Mais Médicos e a Política Nacional Aldir Blanc.
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O diagnóstico aponta riscos elevados de ineficiência, desperdício de recursos e baixa capacidade de mensuração de resultados. A análise do TCU não se limita a erros pontuais. Segundo o órgão, há indícios de um problema sistêmico na forma como políticas públicas são planejadas, executadas e monitoradas no Brasil, afetando diretamente a entrega de benefícios à população.
Panorama das políticas públicas avaliadas pelo TCU
As nove políticas analisadas concentraram, juntas, cerca de R$ 379,1 bilhões em recursos públicos apenas em 2024. Apesar do volume expressivo de investimentos, os auditores constataram que o governo federal enfrenta dificuldades para definir objetivos claros, identificar corretamente os problemas sociais e acompanhar resultados concretos.
De acordo com o relatório, mais da metade dos programas avaliados não apresenta diagnóstico adequado do problema público que deveria enfrentar. Apenas 44% conseguem mapear causas, efeitos e a real dimensão dos desafios envolvidos, o que compromete todas as etapas seguintes da política pública.
Falta de diagnóstico e decisões sem base técnica
Um dos pontos mais críticos levantados pelo TCU é a formulação de políticas sem análise aprofundada da realidade. Em muitos casos, soluções são escolhidas sem comparação com alternativas possíveis ou avaliação prévia de cenários.
Segundo o relatório, em 44% das políticas públicas analisadas não houve estudo comparativo antes da definição da estratégia adotada. Essa ausência de análise técnica eleva significativamente o risco de escolhas ineficientes e de alto custo para os cofres públicos, além de reduzir a probabilidade de sucesso desde a origem do programa.
Especialistas alertam que políticas desenhadas dessa forma tendem a repetir erros do passado, sem aprendizado institucional ou correção de rumos.
Metas genéricas e ausência total de indicadores
Outro problema central apontado pelo TCU envolve a definição de metas e indicadores. Apenas 22% das políticas avaliadas possuem objetivos claros, mensuráveis e considerados factíveis. Em quase oito de cada dez programas, não há clareza sobre o que exatamente se pretende alcançar.
A situação se agrava quando o foco recai sobre indicadores de desempenho. O relatório aponta que 100% das políticas analisadas apresentam falhas na definição de métricas. Além disso, 77% não possuem linha de base e 89% não contam com metas objetivas de entrega, o que inviabiliza qualquer avaliação consistente de eficiência, eficácia ou efetividade.
Bolsa Família sob alerta de governança
O Bolsa Família, um dos principais programas de transferência de renda do país, apresentou três achados relevantes de auditoria. As falhas estão concentradas em aspectos de governança, gestão operacional e monitoramento.
Segundo o TCU, essas fragilidades podem comprometer tanto a correta execução dos pagamentos quanto o acompanhamento das condicionalidades exigidas das famílias beneficiárias. Apesar da importância social do programa, a governança considerada frágil reduz seu impacto real e dificulta ajustes para aprimorar resultados.
Previdência Social Rural enfrenta problemas estruturais
No caso da Previdência Social Rural, os auditores identificaram falhas no diagnóstico do problema e no próprio desenho do programa. A ausência de informações precisas sobre o perfil dos beneficiários, aliada a regras pouco claras, prejudica a efetividade da política.
Especialistas destacam que deficiências no planejamento e na estrutura institucional dificultam a fiscalização e ampliam o risco de distorções, pagamentos indevidos e ineficiência na proteção social da população rural.
Mais Médicos e lacunas no planejamento
O programa Mais Médicos apresentou cinco problemas identificados pelo TCU, envolvendo diagnóstico, análise de alternativas, desenho institucional e governança. As falhas indicam dificuldades na definição de estratégias sustentáveis para garantir atendimento médico em regiões vulneráveis.
O Ministério da Saúde informou que o programa atende atualmente cerca de 67 milhões de brasileiros, com mais de 26 mil médicos atuando em 4,5 mil municípios. No entanto, a pasta não respondeu diretamente aos pontos críticos levantados pela auditoria.
Política Nacional Aldir Blanc concentra maior número de falhas
Entre todas as iniciativas avaliadas, a Política Nacional Aldir Blanc foi a que apresentou o maior número de achados de auditoria: 14 ao todo. Os problemas abrangem desde o desenho da política até falhas de governança, operação e monitoramento.
O Ministério da Cultura afirmou que trabalha no aprimoramento contínuo da política, destacando a criação de plataformas de monitoramento e novas regras para registro de dados em tempo real, com foco em maior transparência e controle.
Infraestrutura, segurança e riscos à população
O TCU também apontou falhas relevantes em programas ligados à infraestrutura e recursos naturais, como o Plano Nacional de Manutenção Rodoviária, o Plano Nacional de Segurança Hídrica e a Política Nacional de Segurança de Barragens.
Segundo o tribunal, deficiências na governança e na fiscalização desses programas podem gerar riscos diretos à segurança da população, além de impactos ambientais e desperdício de investimentos públicos.
Falta de gestão de riscos e monitoramento contínuo
O relatório revela que 78% das políticas públicas avaliadas não possuem estruturas básicas de gestão de riscos e controles internos. Além disso, em 55% dos casos, o monitoramento é inexistente ou ocorre de forma parcial, impedindo correções antes que problemas se agravem.
A ausência de dados confiáveis faz com que, em 44% das políticas, sequer seja possível avaliar resultados. Para analistas, o cenário retrata um Estado que investe bilhões sem instrumentos adequados para saber se as ações geram benefícios concretos à sociedade.